quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CECILE PETROVISK: "Um só coração" - Para Nelson Ascher.

"Um só coração" - Para Nelson Ascher.



Acima da lei
Do desejo, sei:
Todo corpo quer
Tudo, mas sequer

Cede ao bel prazer.
(Que pode fazer
O meu coração
Preso na canção?)

Ainda (assim) bem
Que quase ninguém
Em mais nada crê.

Mesmo quando lê,
Mesmo quando vê.
(Jamais houve além!)




segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CECILE PETROVISK: "Outra Canção" - Para Caetano Veloso.

"Outra Canção" - Para Caetano Veloso.



Tudo se for
Feito de amor.
Grande prazer,
Satisfazer

Um coração.
Nessa canção,
(Quanta alegria
O meu teria!)

Imenso sonho.
Quando componho,
Eu só renasço

E crio um laço
Raro, profundo
Com todo mundo.



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CECILE PETROVISK: "Existem Extraterrestres"

"Existem extraterrestres"




Existem extraterrestres.
De madrugada, do teto
Da minha casa, projeto
Um jeito de vê-los: (Três

Horas esperando por ti)
Conto todas as estrelas!
Eu sei que posso retê-las

No poema, mas sem ti

Tudo volta para o espaço
Trancado do quarto. O céu
É, claro, onde tudo caço,

Um gigantesco escarcéu:
Nó de gravata, esse laço
Que minha vida me deu!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

ADRIANO NUNES: "Vácuo" - para Nelson Ascher

"Vácuo" - Para Nelson Ascher



O amor
Mordeu
Meu eu:
Deus mor-

Reu só!
Do nada
Ao nada,
Um nó

Se fez.
Talvez,
A vida,

Ferida,
(Ou lida?)
De vez.





quinta-feira, 15 de outubro de 2009

CECILE PETROVISK: "Eu tenho medo do meu coração"

"Eu tenho medo do meu coração"



I


Eu tenho medo do meu coração.
O que ele tanto quer de mim agora?
O que ele tanto ver sem fim lá fora?
Por que não flerta as coisas como são,

Evitando os vãos vícios da visão?
Por que não se perde dentro do peito
E faz de conta que tudo é perfeito?
Por que se esconde de toda razão?


II


Eu tenho medo do meu coração.
O que ele tanto trama contra mim?
O que ele tanto estranha em si, sem fim?
Pobre coração! Que aprenda a lição

Com o silêncio do poema! Então,
Cada batimento desfaça a dor,
Entre as fibras, da vida que durou,
Que ao tempo presa ficou, mas em vão.






segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Adriano Nunes: "Poema"

Adriano Nunes: "Poema"



poe m arte
poe m orto
poe m ilha
poe m olho
poe m el hora
poe m allar métrico



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CECILE PETROVISK: "Colapso II" - Para Neuma Lima Santos

"Colapso II" - Para Neuma Lima Santos





Calo-me, neste momento,
Porque, se me dou ao mundo,
Meu mundo logo se perde.
E para que essas palavras
Tão gastas, tão corroídas
Pelo tempo, por propósitos
Da vida? O que ainda sei


Do meu coração? Que resta
Dos versos que um dia fiz,
Pensando dá-los a alguém?
Hoje, não tenho mais nada.
Nenhum parente, vizinho,
Conhecido, amante, cúmplice.
Calo-me. É chegada a vez!


Vou cuspir mesmo no prato
Para lambê-lo depois,
Mas não me venham com pedras,
Não me traguem as idéias,
Não me tratem com consolos.
Eu sou despida de mim,
Eu sou só, eu sou poeta.


Bastam-me as falhas, as farpas,
Os abusos, os meus medos,
Toda a minha lentidão.
Calo-me porque sei pouco
Ouvir, porque não preciso
De ecos, de ficar de frente
Com o que busco ou proclamo.


Aprendi a me defender
Dos ruídos, dos gemidos
Da minha alma. Esse silêncio
É a morte dentro do cérebro,
O mistério pleno, o sonho
Das gretas, desses protótipos,
Mas compreendo-o, confirmo-o.


Não me provem coisa alguma,
Não me venham com as fórmulas
Pitagóricas da mente,
Da razão, de tais rascunhos
Medievais, dos pesares
Inevitáveis do agora,
Não me importam tantas lágrimas.


Que quererei das lembranças?
Que quererei dos remorsos?
Há muito não me procuro
Em verdades, em loucuras.
Que quererei das desculpas?
Quebrarei taças pra quê?
Quero a mímica dos mudos,


Os fantasmas dos fantoches,
As rochas, grossos grafites,
O gesto por decifrar,
Os bastidores, o flerte
Fixo, não qualquer oxímoro
Roçando o texto. Quiçá,
Outra quimera de fato.








Maceió/AL, 1993.